Tinha-me juntado a um grupo que partia de Nairobi em direcção a Nakuru para passar lá a noite e visitar o lago com o mesmo. Esta pequena cidade dista da capital queniana pouco menos de duzentos quilómetros.
Estava previamente combinado uma paragem num orfanato que acolhia crianças que tinham perdido os seus pais pelos mais diversos e infelizes motivos: abandonados, vendidos pelos pais, ou por os terem perdido para a SIDA, vítimas de violência tribal e étnica, guerras políticas e territoriais.
Levava comigo material escolar e roupa para doar à escola. A responsável estava avisada da nossa paragem e quando chegámos tínhamos as crianças à nossa espera.
Sentámo-nos nas suas secretárias, falámos uns com os outros, ouvimos canções.
Manoun, assim me soou o seu nome, estava sentado comigo no mesmo banco. Olhos grandes e profundos. Aparentavam estar ignorar a situação em que se encontrava. Olhava muito para mim, como se estivesse fascinado, e eu sorria-lhe de volta. Subitamente pega na minha mão, puxa por mim e levanta-se. Olho para a directora num olhar de quem não sabe o que fazer e a directora diz "Go, go". A permissão para ir com ele estava dada.
Mantenho a minha mão na dele e sigo atrás. Mostra-me a cantina (oferece-me uma maçã), o pátio onde outros meninos e meninas brincavam, uma pequena horta, uma coelheira de onde tira um coelho e o coloca na minha mão. Mostra os dormitórios e o beliche onde dormia. Senta-se nele e eu no que estava mesmo em frente ao dele. Tiro-lhe esta fotografia, onde tudo parece bater certo. Os olhos sinceros, a sua simplicidade, a sua facilidade em comunicar com um estranho, a sua espontaneidade e personalidade amável. Continua sempre ao meu lado até eu entrar na carrinha e retomar o caminho para Nakuru.
Hoje, passados largos anos, pergunto-me frequentemente qual terá sido o seu futuro.
Se lhe terá sido tão amigável e doce como ele foi comigo naquele dia.
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