França, Paris - Montmartre, a boémia perdida

Em Paris, não interessa quantas vezes lá volte, há sempre dois rituais que preciso de cumprir, ou, talvez mais justamente, duas peregrinações.  A primeira leva-me ao Museu d’Orsay. A segunda, à colina de Montmartre, onde o Sacré-Cœur pontifica sobre a cidade e de lá, desço para o Moulin Rouge.

Em Montmartre, procuro o que já não existe há mais de um século. Ir à procura dos cafés e cabarés que desapareceram. Os ambientes azulados pelo fumo, onde as conversas se fazem e desfazem ao ritmo das volutas dos cigarros, e o ruído surdo das discussões acesas a pairar no ar. Lugares habitados por espíritos livres, inquietos, viscerais.
Gentes das franjas da sociedade parisiense, aqueles que não cabiam na vida formatada da Paris dos finais do século XIX: pintores, músicos, modelos e prostitutas. 
Gentes de bolsos vazios e espírito inquieto, que deixaram para a eternidade, em telas, músicas e livros, as suas convicções e ideais, os amores tantas vezes impossíveis e as realidades que só elas conseguiam ver, sentir e reinventar.


Opto pela aventura dos 222 degraus da Rue du Foyatier do meu lado esquerdo em vez da monotonia do funicular que está à minha frente. No topo, contorno a basílica pelo lado esquerdo e chego à praça dos pintores, a Place du Tertre. Um local conhecido e procurado por quem anda em Montmartre.
Gosto do ambiente: atenção concentrada nos cavaletes, cafés apinhados, gente que se cruza sem pressa, e pessoas sentadas em bancos de plástico ou em velhas cadeiras de vime, gastas pelo tempo e por quem ali se sentou na esperança de ser imortalizado por um artista que, quem sabe, um dia terá o nome gravado no futuro.
No entanto, a arte raramente surpreende. 
Apesar dos preços elevados, artisticamente é muito pobre. 
Os temas rendem-se aos clichés parisienses: obras sem carisma e de cores mortiças, postais de aguarela ou a óleo que simulam fotografias.
Cada artista paga caro pelo espaço que ocupa. Arriscar algo "fora da caixa" pode significar não vender nada. A segurança vende melhor que a ousadia.


Para encontrar o que já não existe, tenho de me sentar e olhar para aquilo que já não se vê, recuperar um ponto no passado.
Escolho a esplanada do café Au Clairon des Chasseurs e peço o menu. 
Procuro algo que, em finais do século XIX, era bebido como se fosse água: o absinto, ou, para os amigos, a Fada Verde. Um espírito travesso sobre o qual muito se versou e pintou; Degas, Van Gogh, Toulouse-Lautrec e Picasso glorificaram-na nas suas telas. Não a encontro mas se tivesse perguntado por ela... 
No seu lugar, peço uma caneca de cerveja e bebo um largo trago. 
Sinto os espectros de pintores, músicos, poetas e escritores a cruzarem-se comigo, como se me reconhecessem. Sorriem, cúmplices, por saberem da admiração e carinho que lhes dedico. 
Muitos deles irei reencontrá-los um ou dois dias depois no Museu d’Orsay.
Olho, sem verdadeiramente a ver, a minha caneca meia vazia e entrego-me a um profundo exercício de abstracção.



Regresso ao Montmartre do século XIX, às décadas de 1850 até ao final do século. A colina e as áreas adjacentes são lamacentas, com hortas, moinhos e pequenos casebres. Território de bares, bordéis e quartos baratos. Para quem vivia de parcas posses, sobretudo os artistas, era aqui que a vida começava.
Maurice Utrillo pintou como ninguém esta ruralidade, a transição para a urbanidade e a decadência de Montmartre. As festas, o ambiente dos salões e bares, deixava-os para outros pintores. Ficava-se pela introspecção, pela solidão e pelas ruas vazias, pelo silêncio do exterior e antes de o interior fervilhar nos longos serões boémios.
Entre o caos, o ruído e o fumo espesso, destiladas pela irrequieta Fada Verde, inspirações e ideais germinavam aqui freneticamente. Ela deslizava livremente pelas mesas, perdida no rumor dos cafés e no tilintar inquieto da sala.
A Paris chique, de elite, não se instalava aqui. Ainda.

Para os frequentadores do famoso cabaret Chat Noir, ouvia-se um pianista introspectivo, um vulto difuso no fumo pesado do salão. 
Ignorado por quem o ouvia, ignorando quem o ouvia, entre canções populares da época de que não gostava, Erik Satie - uma figura excêntrica, mesmo para os padrões desses tempos - fazia experiências musicais para si próprio. 
Delas, nasceriam as silenciosas, minimais e lindíssimas Gymnopédies e Gnossiennes. Um espantoso e quase impossível contraste com o ambiente em que tocava.
No mesmo espaço, partilhando as mesmas necessidades de sobrevivência mas com visões distintas sobre o futuro da música, Satie acabava por criar uma amizade tensa com um interlocutor fervoroso e não menos especial: Claude Debussy. 

A Basílica, muito controversa entre os boémios, uma mistura do sagrado com o urbano, começava a erguer-se em 1875 concluindo-se em 1914. A Primeira Guerra Mundial começava nesse mesmo ano e o Sacré-Coeur começa a trazer para o bairro os seus primeiros turistas acompanhados da urbanidade, das regras, dos deveres e obrigações. Montmartre gentrificava-se. O dinheiro fala mais alto que os cigarros e o absinto. O espaço para os artistas esvaia-se rapidamente.
O novo lugar, o novo bairro onde tudo voltaria a tornar-se efervescente, seria Montparnasse. Mas os tempos já tinham mudado demais para que a história se repetisse. O absinto tinha sido proibido e a boémia tinha-se convertido como um penitente à intelectualidade.
A visceralidade ajoelhava-se perante a lógica.

Esta é a minha peregrinação. Não para ver esta Montmartre vulgarizada onde estou sentado e que observo, mas para regressar à outra Montmartre, a do tempo suspenso e inexistente, onde as artes nasciam da turbulência de uma anarquia mais ou menos explícita, alimentada por prazeres carnais e espirituais.

Entardece e a temperatura cai. Acabo a cerveja. Levanto‑me e sigo em direção ao Moulin Rouge, a versão teatral e exuberante da boémia que já não existe. 
Ao caminhar, penso no quão fascinante foi este período. 
Acredito que da ordem e da imposição de regras - esse vazio para onde Montmartre foi arrastada na primeira década do século XX - nada de vibrante ou transformador surge. 
Podem orientar‑nos, mas é no desvio, na sua fractura, que a chama da criação encontra espaço para respirar e irromper. 
A boémia apagou‑se, mas o seu legado continua a ser o que mais me atrai.





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