Há quem encontre o seu centro no mar. O mar tem esse dom de embalar: o som das ondas, o movimento infalível, a repetição que acalma a respiração e se funde com a nossa.
Para muitos, contemplar o horizonte líquido organiza as suas mentes, como se o marulhar do vaivém da água lhes devolvesse uma ordem, uma clareza interior que o dia lhes roubou.
Sou de céus encobertos. Do nevoeiro que esbate contornos, da chuva que fecha o mundo, do frio que estimula e devolve a cada coisa o seu peso exato.
Sou de céus encobertos. Do nevoeiro que esbate contornos, da chuva que fecha o mundo, do frio que estimula e devolve a cada coisa o seu peso exato.
O sol incomoda‑me. A sua insistência em revelar tudo por onde passa perturba, obrigando‑nos a semicerrar os olhos, ferindo‑os com o seu brilho, como que, ao queimar as cores, fosse a sua forma de impor verdade ao mundo.
Contudo, eu encontro o meu centro num deserto — o reino do sol por excelência.
O deserto tem um dom oposto ao do mar: o de imobilizar. O rigor do silêncio, a quietude inabalável, a pausa que interrompe um fôlego que se suspende no peito. Não acalma pelo movimento; acalma pela ausência dele.
Contemplar o horizonte seco, estático e de uma só cor simplifica o espírito; a nudez da areia vasta devolve a essência que o ruído dissipou.
No mar, muitos encontram paz porque tudo se move. No deserto, eu encontro paz porque tudo pára.
Mas há um preço, um pesado tributo a pagar por esta admiração pelos desertos: a paz é mental, mas o custo é físico. O calor, o sol intenso, a incerteza sobre a água que tenho comigo, sempre foram uma opressão silenciosa e um peso instalado no corpo. O ar seco arranha a garganta, desidrato, a pele queima e os olhos mal se abrem perante a tirania da luz. Um cansaço que perfidamente se infiltra e permanece.
Prefiro o cinzento ao azul. O nevoeiro denso à claridade intensa. A chuva que cria reflexos ao sol que achata sombras e desbota cores.
Mas há um preço, um pesado tributo a pagar por esta admiração pelos desertos: a paz é mental, mas o custo é físico. O calor, o sol intenso, a incerteza sobre a água que tenho comigo, sempre foram uma opressão silenciosa e um peso instalado no corpo. O ar seco arranha a garganta, desidrato, a pele queima e os olhos mal se abrem perante a tirania da luz. Um cansaço que perfidamente se infiltra e permanece.
Prefiro o cinzento ao azul. O nevoeiro denso à claridade intensa. A chuva que cria reflexos ao sol que achata sombras e desbota cores.
Estranho gostar de um lugar que reúne tudo aquilo que me incomoda e, ainda assim, me chama.
O deserto é honesto. É duro. É essência. Não pretende ser mais do que é e não tenta agradar. Não oferece sombra fácil, caminhos marcados ou horizontes variados. Existe na sua nudez absoluta, na implacável sinceridade e inclemência de quem está ali apenas por ser o que é.
E depois há o silêncio. Um silêncio que não existe em nenhum outro lugar.
Com a noite, o deserto devolve‑me ao frio. O frio que reconheço e trato por tu, que me abraça e me devolve ao meu eixo. Recompõe‑me depois do calor que me esvaziou, da luz que me expôs e do silêncio que me atravessou. É o chegar a casa, ao sofá protector, o abrigo onde o dia finalmente se desfaz.
Há lugares que eu visito e outros que me visitam. Os desertos pertencem a ambos. Especialmente na sua permanência em mim, ou, talvez, na minha permanência neles. São magnéticos, nesse aspecto.
Parte do que sou fica lá. Não a parte física, caminhando devagar entre dunas que se sucedem, mas a parte dos pensamentos que nunca se fixam, que fluem ao longo das cristas, que seguem as finas linhas esculpidas pelo vento rasteiro que arrasta as areias para pousos incertos.
E depois há o silêncio. Um silêncio que não existe em nenhum outro lugar.
Não o silêncio da ausência, antes o silêncio revelador: a presença de tudo o que não consigo ouvir porque dói, porque não cicatrizou, porque a pressa do quotidiano não deixa espaço para uma consciência plena.
O mundo cala-se.
Sou eu e o silêncio que me faz sentir e ser.
Há uma melancolia suave no deserto, uma tristeza antiga que não dói.
Um velho amigo que caminha comigo, vagueando de mãos dadas pelas dunas.
Uma duna, uma memória; um horizonte, um livro de histórias — minhas e de quem passou por ali antes de mim.
Um velho amigo que caminha comigo, vagueando de mãos dadas pelas dunas.
Uma duna, uma memória; um horizonte, um livro de histórias — minhas e de quem passou por ali antes de mim.
E então, vem o céu.
Um céu desmedido, tão vasto que parece impossível que tudo caiba ali. Um céu que me recorda que sou minúsculo, e, ainda assim, não irrelevante, porque posso pensá‑lo e posso senti‑lo. Recordo Alberto Caeiro, e em dois versos do poema Da minha Aldeia: “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura.”Sob o sublime manto de estrelas, sinto uma delicada e atraente mistura de solidão e pertença. Como se o universo inteiro me observasse e, ao mesmo tempo, me ignorasse. Uma mansa dualidade que adormece os mais poderosos demónios.
Com a noite, o deserto devolve‑me ao frio. O frio que reconheço e trato por tu, que me abraça e me devolve ao meu eixo. Recompõe‑me depois do calor que me esvaziou, da luz que me expôs e do silêncio que me atravessou. É o chegar a casa, ao sofá protector, o abrigo onde o dia finalmente se desfaz.
Há uma matemática silenciosa nos desertos. Funcionam como o zero, o elemento absorvente da matemática: suspendem, anulam, recolhem. Levam‑me para esse ponto puro e imóvel onde tudo se suaviza, o tempo deixa de correr e a mente, finalmente, sossega.
Se o mar embala, o deserto pausa.
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