As origens do genocídio ruandês recuam ao final da Primeira Guerra Mundial, quando os belgas ocupam o território do Ruanda, após a derrota da Alemanha.
Em 1923 é-lhes concedido pela Liga das Nações uma autorização, um mandato para governar e que lhes permite colonizar o país até 1962.
São reconhecidas as vantagens da colonização belga. A escolarização da população, o desenvolvimento da medicina, do comércio e um conjunto de infra-estruturas essenciais por todo o Ruanda.
Mas todas as moedas têm duas faces, e a outra face da colonização belga é negra. Muito negra. São eles que trazem as sementes do genocídio de 1994.
O Ruanda é um país profundamente étnico. Cerca de dezoito clãs atravessam a identidade do país, que apesar de tudo é una. Partilham a mesma língua, cultura e o mesmo Deus. Mas três grupos têm domínio claro da distribuição da população: as etnias Tutsi, Hutu e Twa.
Em 1932, invocando motivos antropológicos, o governo belga institui o Cartão de Identidade Étnico, que levaria a uma efectiva separação e catalogação das tribos existentes, com base em caracteres morfológicos e na distribuição e ocupação. Com esta identificação as tribos são proibidas de se misturarem.
Dividir para reinar é a política belga nesta altura.
Desta catalogação étnica, os belgas verificam que os hutus representam cerca de 85% da população, os tutsis aproximadamente 14% e a tribo minoritária twa 1% da população.
Usando balanças, fitas métricas e compassos, os belgas "descobrem" que os hutus, lavradores, têm a pele mais escura e o nariz mais achatado e pequeno. Os lábios são grossos, os rostos redondos, com um queixo de formas mais angulosas.
Por sua vez, os tutsis, pastores, são mais altos que os hutus. A pele é mais clara, o rosto alongado e de traços mais finos, contribuindo para isso os lábios mais delgados e o nariz maior e mais fino.
Enquanto que os twa, essencialmente caçadores-recolectores ou trabalhando nas terras de hutus e tutsis, são claramente minoritários, com pele mais clara e estatura significativamente mais baixa, e ficam conhecidos como pigmeus. Seriam posteriormente ignorados na divisão de etnias e estruturação da sociedade que surgiria pouco tempo depois.
Descontentes com esta situação, em Março de 1957 surge o Manifesto Hutu, uma manifestação clara contra o poder político dos tutsis, reclamando democracia e, uma vez que são maioria, exigindo uma maior participação nos destinos do país.
O governo belga muda convenientemente o seu apoio — de novo, dividir para reinar —, dando força ao Manifesto e aos hutus. Esta mudança de apoio lança o país no caos e cria uma trágica divisão de poder.
Em 1959 dão-se as primeiras perseguições e chacinas dos hutus sobre os tutsis. Estes são desalojados de suas casas, que são incendiadas, e depois assassinados.
Estima-se que cerca de 120 mil tutsis fugiram para o exílio e 20 mil terão morrido.
Sob a passividade do governo belga estes actos não são punidos, havendo um mascarado encorajamento à perpetração destes assassinatos.
Mais tarde perceber-se-ia que se tratava de "ensaios" gerais para o que aconteceria em 1994.
No ano seguinte, através de eleições comunais, a elite política tutsi é destituída e substituída por chefes hutus.
Em Janeiro de 1961, um golpe — apoiado pelo coronel belga Guy Logiest — abole a monarquia e institui um governo provisório hutu, liderado por Grégoire Kayibanda.
Sob a égide da ONU e com os hutus a serem a classe política no poder, no dia 1 de Julho de 1962 o Ruanda é declarado uma república independente.
Após a independência e com a partida dos belgas, o Ruanda está entregue a si próprio.
Refém de ódios, ressentimentos e movimentos divisionistas, rixas entre as principais etnias e lutas fratricidas pelo poder, as sementes do genocídio estão lançadas.
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