O Parque Nacional dos Vulcões no Ruanda situa-se a cerca de 25 quilómetros da cidade de Musanze, antiga Ruhengeri, no distrito de Musanze.
É constituído por cinco vulcões, todos eles entre os 3400 e os 4500 m: o Sabyinyo, o Karisimbi, o Bisoke, o Muhabura e o Gahinga. Pertence à cadeia montanhosa Virunga, que serve de fronteira ao Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo.
Há três países onde se pode observar os gorilas da montanha: Uganda (Parque Nacional Floresta Impenetrável de Bwindi), Congo (Parque Nacional de Virunga) e o Ruanda (Parque Nacional dos Vulcões).
Há três países onde se pode observar os gorilas da montanha: Uganda (Parque Nacional Floresta Impenetrável de Bwindi), Congo (Parque Nacional de Virunga) e o Ruanda (Parque Nacional dos Vulcões).
Congo é demasiado instável politica e socialmente para se viajar para lá, o nome do local no Uganda diz tudo sobre ele e o Ruanda - apesar de estar pacificado ainda carrega sobre si o estigma do genocídio de 1994.
Escolhi o Ruanda, até porque iria partir nesta viagem no Quénia, atravessar para o Uganda e os gorilas davam a desculpa necessária para continuar a viagem para este país.
Estou atrasado.
Perdi algum tempo na pequena loja de recordações a escolher uma máscara de madeira preta com o rosto de um gorila da montanha esculpido e depois ainda fui tirar algumas fotografias nas redondezas da entrada do Parque Nacional dos Vulcões.
Tal como tinha visto um pouco por todo o lado, desde que tinha entrado no Ruanda, há sempre alguém a trabalhar nos campos.
Perdi algum tempo na pequena loja de recordações a escolher uma máscara de madeira preta com o rosto de um gorila da montanha esculpido e depois ainda fui tirar algumas fotografias nas redondezas da entrada do Parque Nacional dos Vulcões.
Tal como tinha visto um pouco por todo o lado, desde que tinha entrado no Ruanda, há sempre alguém a trabalhar nos campos.
Quando passo pela estátua de um grande gorila da montanha sentado e cruzo a porta de entrada do Parque, já tinha perdido a distribuição das famílias dos gorilas pelos vários grupos de pessoas que lá estavam.
Volto a perder mais algum tempo para descobrir em que grupo o meu nome estava.
E pior, tinha perdido parte do briefing que os guias dão ao grupo.
O guia observou-me e confirmou o meu nome na sua lista. Fico aliviado. O atraso não tinha sido letal. Estou na família Bwenge.
Das várias famílias de gorilas da montanha que habitam o Parque Nacional dos Vulcões, apenas algumas estão habituadas às pessoas. As famílias tinham o nome do gorila de dorso prateado que as liderava.
Apresenta-se. Chamava-se Felix. Era alto, corpo esguio e rosto alongado com uns óculos desmedidamente grandes para o tamanho da cara.
Ao seu lado tem Godofred, estagiário e um possível futuro guia. Igualmente alto, simpático, tímido com ar formal, costas bem direitas numa postura quase militar que nunca abandonaria.
Chegaste atrasado. Devias ter ido para os "fit".
Já sabia disto. Ele estava a dizer-me por outras palavras que poderia ter ido para a família Susa. É um dos mais desejados e um dos maiores grupos que se pode observar.
A distribuição das pessoas pelos gorilas é atribuída em função da aparente capacidade física.
Os que supostamente estão ou parecem em melhor forma física, os tais "fit", vão para os gorilas que andam nas maiores altitudes e logo exigem as maiores caminhadas. Os que estão em menor forma ficam com os que estão mais em baixo.
Por ter chegado atrasado fico num grupo médio. Serve-me perfeitamente. Só pretendo ver gorilas da montanha, não me interessa a altitude a que eles estavam.
O guia observou-me e confirmou o meu nome na sua lista. Fico aliviado. O atraso não tinha sido letal. Estou na família Bwenge.
Das várias famílias de gorilas da montanha que habitam o Parque Nacional dos Vulcões, apenas algumas estão habituadas às pessoas. As famílias tinham o nome do gorila de dorso prateado que as liderava.
Apresenta-se. Chamava-se Felix. Era alto, corpo esguio e rosto alongado com uns óculos desmedidamente grandes para o tamanho da cara.
Ao seu lado tem Godofred, estagiário e um possível futuro guia. Igualmente alto, simpático, tímido com ar formal, costas bem direitas numa postura quase militar que nunca abandonaria.
Chegaste atrasado. Devias ter ido para os "fit".
Já sabia disto. Ele estava a dizer-me por outras palavras que poderia ter ido para a família Susa. É um dos mais desejados e um dos maiores grupos que se pode observar.
A distribuição das pessoas pelos gorilas é atribuída em função da aparente capacidade física.
Os que supostamente estão ou parecem em melhor forma física, os tais "fit", vão para os gorilas que andam nas maiores altitudes e logo exigem as maiores caminhadas. Os que estão em menor forma ficam com os que estão mais em baixo.
Por ter chegado atrasado fico num grupo médio. Serve-me perfeitamente. Só pretendo ver gorilas da montanha, não me interessa a altitude a que eles estavam.
Felix tinha nascido no Congo e trabalhava há mais de dez anos como guia no Parque Nacional dos Vulcões. Já tinha sido guia dos gorilas no Parque Nacional Virunga, no Congo.
Quando mais tarde lhe perguntei o porquê da mudança, respondeu, com ar meio triste e resignado, o que eu esperava e sabia:
- O Congo é um país perigoso para os turistas e até mesmo para quem lá vive. Por isso ninguém vai ver os gorilas ao Virunga.
E acrescentou o óbvio: "Não se ganha dinheiro com eles."
Éramos poucos no grupo. Para além de mim, mais três pessoas.
Uma canadiana, a Christine, que tinha 57 anos e parecia uma barbie. Muito profissional. Luvas, boas botas de caminhada, um chapéu panamá em tons de caqui, camisa e calças de trekking naturalmente em tons de caqui. Tinha com ela uma mala que não era em tons de caqui e cujo conteúdo nunca vi. Godofred carregou-a o tempo todo.
John era americano. Mais parecia que ia caçar gorilas do que vê-los. Também boa botas pretas de cano alto tipo tropa, calças em camuflado, boné verde garrafa e óculos escuros. Tinha estado com os gorilas no dia anterior. Gostou tanto que desembolsou mais quinhentos dólares para repetir a dose.
E a inglesa Liz. Tagarela, extrovertida e prática. Calças de ganga, t-shirt azul claro, bem roçada, e ténis completamente inadequados para o tipo de trilhos que iríamos apanhar.
A acompanhar-nos estava um guarda armado. Era para evitar surpresas vindas de animais de duas e quatro patas. Apesar de não ser frequente, ainda havia o risco de nos cruzarmos com caçadores furtivos.
Fomos de jipe por estradas bastante maltratadas durante uns quinze ou vinte minutos até chegarmos ao ponto de partida. Uma pequena e anónima aldeia de montanha.
Uma nuvem de miúdos espera por nós com as mãos cheias de cajados de madeira, com os topos habilmente esculpidos com cabeças e rostos de gorilas. Enxameiam à nossa volta para os vender.
Aponto para o seu calçado da Liz e aconselho a comprar um. Os putos ficariam felizes e ao mesmo iria ajudá-la muito no trilho irregular que se mostrava à nossa frente. E comprou.
Uma canadiana, a Christine, que tinha 57 anos e parecia uma barbie. Muito profissional. Luvas, boas botas de caminhada, um chapéu panamá em tons de caqui, camisa e calças de trekking naturalmente em tons de caqui. Tinha com ela uma mala que não era em tons de caqui e cujo conteúdo nunca vi. Godofred carregou-a o tempo todo.
John era americano. Mais parecia que ia caçar gorilas do que vê-los. Também boa botas pretas de cano alto tipo tropa, calças em camuflado, boné verde garrafa e óculos escuros. Tinha estado com os gorilas no dia anterior. Gostou tanto que desembolsou mais quinhentos dólares para repetir a dose.
E a inglesa Liz. Tagarela, extrovertida e prática. Calças de ganga, t-shirt azul claro, bem roçada, e ténis completamente inadequados para o tipo de trilhos que iríamos apanhar.
A acompanhar-nos estava um guarda armado. Era para evitar surpresas vindas de animais de duas e quatro patas. Apesar de não ser frequente, ainda havia o risco de nos cruzarmos com caçadores furtivos.
Fomos de jipe por estradas bastante maltratadas durante uns quinze ou vinte minutos até chegarmos ao ponto de partida. Uma pequena e anónima aldeia de montanha.
Uma nuvem de miúdos espera por nós com as mãos cheias de cajados de madeira, com os topos habilmente esculpidos com cabeças e rostos de gorilas. Enxameiam à nossa volta para os vender.
Aponto para o seu calçado da Liz e aconselho a comprar um. Os putos ficariam felizes e ao mesmo iria ajudá-la muito no trilho irregular que se mostrava à nossa frente. E comprou.
A partir daqui era sempre a subir.
Uma neblina de luz intensa pairava sobre a paisagem. Empalidecia o azul do céu e esmorecia o verde dos campos mais longínquos.
Atrás de mim e à minha frente, a paisagem é dominada pelos imponentes vulcões. Tudo transmite a sensação de uma aldeia isolada na montanha e perdida na pacatez do tempo.
Na subida, atravessámos pequenas hortas e campos plantados. A maior parte deles está cultivada com batatas destinadas ao consumo local.
Algumas vacas e cabras pastavam próximo de nós e dois cães dormiam entre os carreiros cavados. Aqui e acolá, galinhas iam esgravatam e debicam o chão ao acaso.
Crianças correm na nossa direcção dizendo adeus com as duas mãos. Sorriem e gritam aquela palavra universal que representa tudo o que não seja oriundo do seu país: Helllooo, hellooo!!!
Param junto a nós, travados por uma força invisível que os impedia de se aproximarem mais. Proximidade faz esmorecer a sua exuberância. Ficam mudos e embaraçados a olhar-nos sem pedir nada, Olham atentamente para as nossas mãos, pés e mochilas. Tocam nas câmaras para sentir o seu peso e textura. Satisfaziam a sua curiosidade.
Algumas vacas e cabras pastavam próximo de nós e dois cães dormiam entre os carreiros cavados. Aqui e acolá, galinhas iam esgravatam e debicam o chão ao acaso.
Crianças correm na nossa direcção dizendo adeus com as duas mãos. Sorriem e gritam aquela palavra universal que representa tudo o que não seja oriundo do seu país: Helllooo, hellooo!!!
Param junto a nós, travados por uma força invisível que os impedia de se aproximarem mais. Proximidade faz esmorecer a sua exuberância. Ficam mudos e embaraçados a olhar-nos sem pedir nada, Olham atentamente para as nossas mãos, pés e mochilas. Tocam nas câmaras para sentir o seu peso e textura. Satisfaziam a sua curiosidade.
De ambos os lados do trilho de subida havia casas. Separadas dos terrenos por pequenas sebes feitas com arbustos e algumas plantas trepadeiras.
Eram pobres e de aspecto muito frágil. Todas construídas da mesma maneira.
Paredes de argila e barro, reforçadas com canas atravessadas e com telhados em chapa de zinco ondulado. Algumas delas ainda por concluir, se alguma vez o fossem.
Se as crianças eram exuberantes, os locais eram mais contidos. Muitos permaneceram indiferentes à nossa passagem, continuando a preparar os campos, outros levantaram os olhos com curiosidade.
Tanto sorriam como mostravam rostos com olhares endurecidos.
Como é que estas pessoas nos veriam? Como extraterrestres invasores vindos de um planeta oposto do seu, ou como alguém capaz de lhes melhorar a qualidade de vida através das suas moedas ocidentais?
Alguém que lhes tira fotografias para mostrar em países que dificilmente eles visitarão e dizer "Olhem, tão pobres que eles são!" ou alguém cujas fotografias servem para mostrar, nesses mesmos países, que há realidades e modos de vida diferentes daquilo a que estamos habituados e assumimos como garantido?
Curioso, pergunto ao Felix de que maneira eram aplicados os quinhentos dólares da licença para ver os gorilas da montanha.
Uma parte para a manutenção da floresta e protecção dos gorilas, outra para pagar e formar todo o conjunto de pessoas que trabalha para o Parque, nomeadamente guias, batedores e carregadores. E uma terceira parte é aplicada na comunidade. Pavimentação de estradas, construção de escolas, centros de saúde e abertura de poços.
Duvido da terceira parcela por aquilo que tinha visto enquanto estive no jipe. Talvez...
Passada a fase inicial da subida, penetrámos na densa floresta. Antes, uma paragem para rever a parte essencial do briefing que tinha perdido.
Pela frente tínhamos trilhos lamacentos e estreitos, ramos de árvores, arbustos, raízes escondidas na terra, muitas escorregadelas e alguns tropeções.
Mesmo com o cajado, a Liz estava em maus lençóis.
- Seguir sempre as suas instruções ou a dos batedores
- Falar baixo
- Jamais promover o contacto com os gorilas
- Manter pelo menos 7m de distância para os gorilas
- Na altura da observação, apenas levar máquinas fotográficas. Nada de mochilas ou cantis.
- Afastar-nos, não fugir ou gritar se os gorilas se aproximarem demasiado ou nos tocarem.
- A observação dos gorilas dura uma hora.
Pela frente tínhamos trilhos lamacentos e estreitos, ramos de árvores, arbustos, raízes escondidas na terra, muitas escorregadelas e alguns tropeções.
Mesmo com o cajado, a Liz estava em maus lençóis.






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