Há três países onde se pode observar os gorilas da montanha: Uganda (Parque Nacional Floresta Impenetrável de Bwindi), Congo (Parque Nacional de Virunga) e o Ruanda (Parque Nacional dos Vulcões).
Perco algum tempo na pequena loja de recordações a escolher uma máscara de madeira preta com o rosto de um gorila da montanha esculpido, e depois ainda vou tirar algumas fotografias nas redondezas da entrada do Parque Nacional dos Vulcões.
Tal como tenho visto um pouco por todo o lado, desde que entrei no Ruanda, há sempre alguém a trabalhar nos campos.
O guia observa-me e confirma o meu nome na sua lista. Fico aliviado. O atraso não tinha sido letal. Estou na família Bwenge.
Das várias famílias de gorilas da montanha que habitam o Parque Nacional dos Vulcões, apenas algumas estão habituadas às pessoas. As famílias têm o nome do gorila de dorso prateado que as lidera.
Apresenta-se. Chama-se Felix. É alto, corpo esguio e rosto alongado, com uns óculos desmedidamente grandes para o tamanho da cara. Ao seu lado tem Godofred, estagiário e um possível futuro guia. Igualmente alto, simpático, tímido, com ar formal, costas bem direitas numa postura quase militar que nunca abandonaria.
— Chegaste atrasado. Devias ter ido para os "fit".
Já sabia disto. Está a dizer-me, por outras palavras, que eu poderia ter ido para a família Susa.
É um dos mais desejados e um dos maiores grupos que se pode observar.
A distribuição das pessoas pelos gorilas é atribuída em função da aparente capacidade física.
Os que supostamente estão ou parecem em melhor forma física, os tais "fit", vão para os gorilas que andam nas maiores altitudes e logo exigem as maiores caminhadas. Os que estão em menor forma ficam com os que estão mais em baixo.
Propositadamente somos poucos no grupo. Para além de mim, mais três pessoas.
John é americano. Mais parece que vai caçar gorilas do que vê-los. Também tem boas botas pretas de cano alto tipo tropa, calças em camuflado, boné verde garrafa e óculos escuros.
E a inglesa Liz. Tagarela, extrovertida e prática. Calças de ganga, t-shirt azul claro, bem roçada, e ténis completamente inadequados para o tipo de trilhos que iremos apanhar.
A acompanhar-nos está um guarda armado. É para evitar surpresas vindas de animais de duas e quatro patas. Apesar de não ser frequente, ainda há o risco de nos cruzarmos com caçadores furtivos.
Vamos de jipe por estradas bastante maltratadas durante uns quinze ou vinte minutos até chegarmos ao ponto de partida.
Vou a pensar como cheguei até aqui. Há três países onde se pode observar os gorilas da montanha: Uganda (Parque Nacional Floresta Impenetrável de Bwindi), Congo (Parque Nacional de Virunga) e o Ruanda (Parque Nacional dos Vulcões).
O Congo é demasiado instável política e socialmente para se viajar para lá, o nome do local no Uganda diz tudo sobre ele, e o Ruanda — apesar de estar pacificado — ainda carrega sobre si o estigma do genocídio de 1994.
Curioso, pergunto ao Felix de que maneira são aplicados os quinhentos dólares da licença para ver os gorilas da montanha.
— Uma parte para a manutenção da floresta e protecção dos gorilas, outra para pagar e formar todo o conjunto de pessoas que trabalha para o Parque, nomeadamente guias, batedores e carregadores. E uma terceira parte é aplicada na comunidade. Pavimentação de estradas, construção de escolas, centros de saúde e abertura de poços.
Duvido da terceira parcela por aquilo que tinha visto enquanto estive no jipe.
Talvez...
O Parque Nacional dos Vulcões situa-se a cerca de 25 quilómetros da cidade de Musanze, antiga Ruhengeri, no distrito de Musanze. É constituído por cinco vulcões, todos eles entre os 3400 e os 4500 m: o Sabyinyo, o Karisimbi, o Bisoke, o Muhabura e o Gahinga. Pertence à cadeia montanhosa Virunga, que serve de fronteira ao Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo.
Chegamos ao ponto de partida. Uma pequena e anónima aldeia de montanha.
Uma nuvem de miúdos espera por nós com as mãos cheias de cajados de madeira, com os topos habilmente esculpidos com cabeças e rostos de gorilas. Enxameiam à nossa volta para os vender.
Aponto para o calçado da Liz e aconselho-a a comprar um. Os putos ficam felizes e, ao mesmo tempo, isso vai ajudá-la muito no trilho irregular que se mostra à nossa frente. E compra.
A partir daqui é sempre a subir.
Uma neblina de luz intensa paira sobre a paisagem. Empalidece o azul do céu e esmorece o verde dos campos mais longínquos.
Atrás de mim e à minha frente, a paisagem é dominada pelos imponentes vulcões. Tudo transmite a sensação de uma aldeia isolada na montanha e perdida na pacatez do tempo.
Cheira a terra molhada e a fumo de lenha. O som dos cajados a bater contra as pedras do trilho mistura-se com o mugir distante de uma vaca e o cacarejar nervoso de uma galinha.
Na subida, atravessamos pequenas hortas e campos plantados. A maior parte deles está cultivada com batatas destinadas ao consumo local.
De ambos os lados do trilho de subida há casas. Separadas dos terrenos por pequenas sebes feitas com arbustos e algumas plantas trepadeiras.
São pobres e de aspecto muito frágil. Todas construídas da mesma maneira.
Paredes de argila e barro, reforçadas com canas atravessadas e com telhados em chapa de zinco ondulado. Algumas delas ainda por concluir, se alguma vez o forem.
Tanto sorriem como mostram rostos com olhares endurecidos.
Como é que estas pessoas nos veriam? Como extraterrestres invasores vindos de um planeta oposto ao seu, ou como alguém capaz de lhes melhorar a qualidade de vida através das suas moedas ocidentais?
Alguém que lhes tira fotografias para mostrar em países que dificilmente eles visitarão e dizer "Olhem, tão pobres que eles são!" ou alguém cujas fotografias servem para mostrar, nesses mesmos países, que há realidades e modos de vida diferentes daquilo a que estamos habituados e assumimos como garantido?
Curioso, pergunto ao Felix de que maneira eram aplicados os quinhentos dólares da licença para ver os gorilas da montanha.
Uma parte para a manutenção da floresta e protecção dos gorilas, outra para pagar e formar todo o conjunto de pessoas que trabalha para o Parque, nomeadamente guias, batedores e carregadores. E uma terceira parte é aplicada na comunidade. Pavimentação de estradas, construção de escolas, centros de saúde e abertura de poços.
Duvido da terceira parcela por aquilo que tinha visto enquanto estive no jipe.
- Seguir sempre as suas instruções ou a dos batedores
- Falar baixo
- Jamais promover o contacto com os gorilas
- Manter pelo menos 7m de distância para os gorilas
- Na altura da observação, apenas levar máquinas fotográficas. Nada de mochilas ou cantis.
- Afastar-nos, não fugir ou gritar se os gorilas se aproximarem demasiado ou nos tocarem.
- A observação dos gorilas dura uma hora.
Pela frente tínhamos trilhos lamacentos e estreitos, ramos de árvores, arbustos, raízes escondidas na terra, muitas escorregadelas e alguns tropeções.
Mesmo com o cajado, a Liz estava em maus lençóis.






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