A setenta quilómetros de Kashan, cravada nas encostas da montanha Karkas, a dois mil e quinhentos metros de altitude, está uma aldeia histórica de cor avermelhada. Chamam-lhe a Aldeia Vermelha.
A cor vem do solo, do barro da montanha que contém óxido de ferro — o mesmo barro de que a aldeia é feita. As suas casas são feitas em adobe — um dos materiais de construção mais antigos que se conhece. Tijolos de lama moldados com água e reforçados com palha, ramos de árvores, pequenos barrotes no seu interior. No fim, secam ao ar, endurecem, e são então utilizados na construção das casas.
Abyaneh tem pouco mais de três centenas de habitantes e estes fazem questão de manter tudo como estava há bem vinte séculos. Estica-se ao longo do rio Barzrud e no dialecto local, pahlavi, significa Bosque dos Salgueiros.
E se há sítios onde os relógios param, onde só as folhas dos calendários, como as folhas de uma velha árvore, é que caem, Abyaneh é um deles.
Vêm-se poucos turistas em Abyaneh. Este pedaço de história milenar está longe de ficar nas principais rotas turísticas. Não é fácil chegar até aqui. Não há autocarros. Ou se chega de táxi, ou numa excursão organizada pelos hotéis. Mas brevemente, de uma forma drástica, e para pior, esta situação vai mudar.
Desde que, em 2015, o acordo nuclear foi atingido entre os Estados Unidos e o Irão, trazendo consigo o fim do embargo e o alívio das sanções económicas para os iranianos, este país finalmente teve a oportunidade de passar para o exterior aquilo que realmente é. Um país pacífico, seguro, dono de uma cultura ancestral invejável, uma mistura de paisagens e desertos de encantar, e um povo inacreditavelmente hospitaleiro.
Em 2014, cruzaram as fronteiras do Irão cerca de quatro milhões de turistas; em 2016, cerca de cinco milhões. As autoridades iranianas tinham por objectivo atingir vinte e cinco milhões até 2025. Até lá, quase um milhar de hotéis de quatro e cinco estrelas vão estragar este país do Médio Oriente como o acne arrasa um rosto bonito.
Ela é um quadro pintado por camadas.
As árvores emolduram de verde a parte inferior da aldeia. No topo, está um céu timidamente cinzento; as montanhas mais afastadas estão enegrecidas, o que ajuda a contrastar a zona ocre central desta tela. As casas estão construídas umas sobre as outras. As de cima estão apoiadas nos terraços das de baixo. Abyaneh vista daqui, à distância, parece que brota, que nasce da montanha, socalco a socalco, quase fundindo-se com ela.
A cor vem do solo, do barro da montanha que contém óxido de ferro — o mesmo barro de que a aldeia é feita. As suas casas são feitas em adobe — um dos materiais de construção mais antigos que se conhece. Tijolos de lama moldados com água e reforçados com palha, ramos de árvores, pequenos barrotes no seu interior. No fim, secam ao ar, endurecem, e são então utilizados na construção das casas.
Abyaneh tem pouco mais de três centenas de habitantes e estes fazem questão de manter tudo como estava há bem vinte séculos. Estica-se ao longo do rio Barzrud e no dialecto local, pahlavi, significa Bosque dos Salgueiros.
E se há sítios onde os relógios param, onde só as folhas dos calendários, como as folhas de uma velha árvore, é que caem, Abyaneh é um deles.
Vêm-se poucos turistas em Abyaneh. Este pedaço de história milenar está longe de ficar nas principais rotas turísticas. Não é fácil chegar até aqui. Não há autocarros. Ou se chega de táxi, ou numa excursão organizada pelos hotéis. Mas brevemente, de uma forma drástica, e para pior, esta situação vai mudar.
Desde que, em 2015, o acordo nuclear foi atingido entre os Estados Unidos e o Irão, trazendo consigo o fim do embargo e o alívio das sanções económicas para os iranianos, este país finalmente teve a oportunidade de passar para o exterior aquilo que realmente é. Um país pacífico, seguro, dono de uma cultura ancestral invejável, uma mistura de paisagens e desertos de encantar, e um povo inacreditavelmente hospitaleiro.
Em 2014, cruzaram as fronteiras do Irão cerca de quatro milhões de turistas; em 2016, cerca de cinco milhões. As autoridades iranianas tinham por objectivo atingir vinte e cinco milhões até 2025. Até lá, quase um milhar de hotéis de quatro e cinco estrelas vão estragar este país do Médio Oriente como o acne arrasa um rosto bonito.
É esta explosão turística que pode vir a acontecer que preocupa seriamente os habitantes da Aldeia Vermelha.
Não há carros. Nem pode haver. Numa aldeia com séculos de história, a existência de carros era inimaginável. Estes ficam às portas da aldeia.
Numa tentativa de travar este crescimento que lhes está a perturbar a serenidade e a pacatez do seu estilo de vida, paga-se para entrar em Abyaneh. E como em tudo que tenha interesse turístico no Irão, os preços são para subir bem alto e bem depressa.
Logo à entrada há um pequeno túnel encimado com um arco. Debaixo dele existe uma plataforma de pedras toscas, alinhadas e cimentadas umas às outras, onde os abyanaki se sentam.
As ruas são estreitas e o rosado escuro das fachadas banha todo o nosso olhar. Nos postes eléctricos, vejo o que se vai vendo um pouco por todo o lado no Irão: rostos dos mártires da guerra Irão-Iraque.
As janelas, as vedações e os terraços são feitos ou sustentados por madeira.
Nas fachadas das casas mais antigas e nas que colapsaram, ou nos muros que estão em ruínas, fica exposta a forma ancestral de como foram feitas. Os portões de ferro forjado foram discretamente pintados segundo a cor dominante.
Reparo que muitas das portas de madeira têm dois batentes de formas diferentes, cada um com o seu som. Mulheres usam um, homens usam outro. Pela forma como soa o seu bater, o dono da casa sabe quem está à sua porta.
Não há carros. Nem pode haver. Numa aldeia com séculos de história, a existência de carros era inimaginável. Estes ficam às portas da aldeia.
As roupas tradicionais dos seus habitantes são difíceis de ignorar. As mulheres usam, quase todas elas, uma saia preta abaixo dos joelhos e uma túnica branca, o charghad, com motivos florais que lhes tapa a cabeça e que acaba abaixo da cintura. Os homens usam cintos de seda e largas calças pretas. Nas mangas dos seus casacos, o qaba, pode-se ver se são solteiros ou casados. Os punhos são simples se solteiros, bordados se casados.
Praticamente só vejo velhos e crianças. As faixas etárias intermédias estão ausentes. Porque são os velhos que ficam, quando os jovens saem de Abyaneh, principalmente para Kashan e Teerão, em busca de desafios, da faculdade, de trabalho. E porque são os velhos que regressam, após uma vida de trabalho — estes retiram-se para aqui em busca de paz e de uma mudança de filosofia de vida.
As poucas crianças que vejo fazem um compasso de espera. Os seus pais, fora da aldeia, colocam-nos sob a guarda das gerações antigas, enquanto não chega a vez da sua partida.
A imutabilidade do tempo em Abyaneh mostra algumas feridas que a modernidade causa.
Praticamente só vejo velhos e crianças. As faixas etárias intermédias estão ausentes. Porque são os velhos que ficam, quando os jovens saem de Abyaneh, principalmente para Kashan e Teerão, em busca de desafios, da faculdade, de trabalho. E porque são os velhos que regressam, após uma vida de trabalho — estes retiram-se para aqui em busca de paz e de uma mudança de filosofia de vida.
As poucas crianças que vejo fazem um compasso de espera. Os seus pais, fora da aldeia, colocam-nos sob a guarda das gerações antigas, enquanto não chega a vez da sua partida.
A imutabilidade do tempo em Abyaneh mostra algumas feridas que a modernidade causa.
Há casas isoladas com alumínio brilhante, redes e grades metálicas, lixo, algerozes e tubagens metálicas a sair do interior das casas, contadores de gás e electricidade que rasgam inesteticamente as fachadas do adobe vermelho-rosado.
Existe mesmo uma fachada aberrante e ofensivamente coberta do que parece ser azulejos.
Afasto-me do centro da aldeia. Pretendo passar para o outro lado do rio Barzrud. Caminho entre estreitos trilhos fechados pelas copas das árvores, quase emparedados entre muros. Mulheres carregam às costas molhos de ervas. É difícil fotografá-las. Não insisto perante a sua recusa. Passo por árvores, pequenos pomares e plantações. O ambiente de montanha, a altitude e os Invernos duros não permitem a prática franca da agricultura. Ela é humilde e pobre em variedade.
Chego a um vale. Não vejo habitantes, nem turistas. Sem a influência do Barzrud, não há vegetação. O verde quase desaparece, é esparso e desmaiado. São os castanhos e os amarelos áridos que forram a paisagem.
Afasto-me do centro da aldeia. Pretendo passar para o outro lado do rio Barzrud. Caminho entre estreitos trilhos fechados pelas copas das árvores, quase emparedados entre muros. Mulheres carregam às costas molhos de ervas. É difícil fotografá-las. Não insisto perante a sua recusa. Passo por árvores, pequenos pomares e plantações. O ambiente de montanha, a altitude e os Invernos duros não permitem a prática franca da agricultura. Ela é humilde e pobre em variedade.
Chego a um vale. Não vejo habitantes, nem turistas. Sem a influência do Barzrud, não há vegetação. O verde quase desaparece, é esparso e desmaiado. São os castanhos e os amarelos áridos que forram a paisagem.
A subida em direcção à Fortaleza de Palahamooneh é inclinada, mas curta. É uma milenar e simples muralha rectangular, onde em cada canto pontifica um torreão de guarda. Remonta à dinastia Sassânida, presente na antiga Pérsia entre os anos 224 e 651 d.C.
Percorro parte da sua periferia muralhada. Mas não foi ela que me trouxe aqui. É quando me viro de costas para a muralha e enfrento a encosta da montanha que encontro o que quero: a paisagem.
Percorro parte da sua periferia muralhada. Mas não foi ela que me trouxe aqui. É quando me viro de costas para a muralha e enfrento a encosta da montanha que encontro o que quero: a paisagem.
As árvores emolduram de verde a parte inferior da aldeia. No topo, está um céu timidamente cinzento; as montanhas mais afastadas estão enegrecidas, o que ajuda a contrastar a zona ocre central desta tela. As casas estão construídas umas sobre as outras. As de cima estão apoiadas nos terraços das de baixo. Abyaneh vista daqui, à distância, parece que brota, que nasce da montanha, socalco a socalco, quase fundindo-se com ela.
Há um irritante oleado azul intenso e vibrante, para o qual o meu olhar facilmente escorrega, que interfere com a harmonia deste quadro. À direita desta pintura, depois do aberrante oleado, um cone azul, suave, elegante, ergue-se e destaca-se acima dos terraços avermelhados e planos das casas, identificando facilmente o minarete da mesquita Jam'e, erigida no século XI.
Retomo o caminho de volta para o centro da aldeia, por um trilho diferente. É mais longo, mas o desnível é menor e permite-me passar mais tempo neste vale isolado.
Um pequeno grupo de locais surge no vale.
Retomo o caminho de volta para o centro da aldeia, por um trilho diferente. É mais longo, mas o desnível é menor e permite-me passar mais tempo neste vale isolado.
Um pequeno grupo de locais surge no vale.









Comentários
Enviar um comentário