Palmira florescera sob o domínio romano como poucas cidades do império, controlando uma das artérias mais valiosas do mundo antigo.
As caravanas que atravessavam o deserto entre o Mediterrâneo e a Mesopotâmia, carregadas de seda, especiarias e marfim, passavam todas por ali.
Controlar Palmira significava controlar o fluxo de riqueza entre o Oriente e o Ocidente.
Controlar Palmira significava controlar o fluxo de riqueza entre o Oriente e o Ocidente.
Em 267 d.C., com pouco mais de trinta anos e o marido recém-assassinado, Zenóbia assumiu o trono de Palmira e imediatamente começou a expandir o que herdara.
Em menos de cinco anos estendeu o seu domínio do Egipto à Turquia, da Síria à Palestina. Roma não podia ignorar uma ameaça desta dimensão.
Em 272, o imperador Aureliano marcha sobre Palmira. Zenóbia é capturada. A cidade rende-se.
No ano seguinte, na ausência da sua rainha, Palmira tenta recuperar a independência. Aureliano regressa e desta vez não poupa a cidade. É saqueada e incendiada.
Entre cinzas e areia, Palmira não voltou a erguer-se.
Em 272, o imperador Aureliano marcha sobre Palmira. Zenóbia é capturada. A cidade rende-se.
No ano seguinte, na ausência da sua rainha, Palmira tenta recuperar a independência. Aureliano regressa e desta vez não poupa a cidade. É saqueada e incendiada.
Entre cinzas e areia, Palmira não voltou a erguer-se.
O pequeno autocarro imobiliza-se após duas horas de viagem desde Homs. A guia vira-se para o grupo e anuncia o óbvio: chegámos.
Ao descer o último degrau, o amarelo desmaiado do deserto invade o horizonte e um céu indeciso entre o azul e o cinzento fecha o mundo por cima.
Piso o solo de Palmira, uma das cidades mais improváveis de existir.
Caminho pelo recinto e pelo tempo com uma mão no bolso, enquanto a outra segura a câmara com um desleixo aparente.
Aprecio estes primeiros minutos. Dou pequenos pontapés na areia como que acordando o deserto do seu torpor milenar.
Percorremos os principais marcos: o Templo de Bel, o Arco do Triunfo, a Avenida das Colunas, o Tetrapílon, o Anfiteatro. Inúmeros arcos, colunas e pórticos estão caídos. Caminho entre blocos de pedra que evito pisar.
De volta à carrinha para fazer uma paragem onde tudo terá começado: a fonte de Afqa.
Secou em 1994 consequência de secas e uso excessivo de água. O Daesh destruiu-a nas duas ocupações. Foi reabilitada através de um projeto conjunto sírio-russo e voltou a correr em 2019.
No caminho de volta para Homs, um exercício de imaginação.
Imagino como estas cidades seriam nos seus tempos mais gloriosos, como seriam os seus aromas, as suas cores, ruídos e as rotinas diárias. Encruzilhada de culturas, pensamentos, arte e arquitectura.
Por isto gostei tanto de Khiva e de Petra.
Uma sensação de portal do tempo quando se cruzam as muralhas da primeira ou se chega ao fim do al-Siq da segunda. O século XXI fica para trás e recuamos um par de milénios.
A guia leva-me ao hipogeu dos Três Irmãos — Male, Saadi e Naamain —, um túmulo subterrâneo em forma de T, construído no século II d.C. para os três irmãos e as suas famílias.
A surpresa é imediata mas rapidamente deixa de o ser.
Os túmulos estão barricados. Enormes sacos de areia formam um ziguezague ao longo da pequena escadaria de acesso, uns à esquerda, outros à direita.
A surpresa é imediata mas rapidamente deixa de o ser.
Os túmulos estão barricados. Enormes sacos de areia formam um ziguezague ao longo da pequena escadaria de acesso, uns à esquerda, outros à direita.
Nas escadas e na área próxima da entrada, há cartuchos de balas e restos de armas. Uma palavra - Daesh.
O interior do vestíbulo é apertado, estreito e escuro como breu. A lanterna do telemóvel mal rompe a escuridão. O tecto é abobadado e há imenso pó. Pó de quem passou e destruiu, e o pó de quem existiu há dois mil anos presentes no mesmo ar.
O interior do vestíbulo é apertado, estreito e escuro como breu. A lanterna do telemóvel mal rompe a escuridão. O tecto é abobadado e há imenso pó. Pó de quem passou e destruiu, e o pó de quem existiu há dois mil anos presentes no mesmo ar.
Reparo que há nichos com ossadas. Há outras câmaras, galerias delicadamente trabalhadas.
Alguns frescos sobrevivem à presença do Daesh. Muitos estão pintados de branco, perdidos na ganância da destruição cultural, da identidade síria e de um fundamentalismo religioso tenebroso.
Não demoro muito tempo. A presença da barricada de sacos de areia perturba-me mais do que quaisquer ossadas que possa encontrar.
Deixo para trás o hipogeu.
Em maio de 2015, o Daesh entrou em Palmira pela primeira vez. Durante quase um ano - até março de 2016 - ocupou a cidade, altura em que as forças sírias a recuperaram. Em dezembro do mesmo ano voltou. Em março de 2017 foi expulso definitivamente.
Dois anos, no total. Tempo suficiente para destruir o que vinte séculos preservaram.
A motivação foi, acima de tudo, financeira.
Palmira como refém e o seu património como moeda de troca. O que não foi vendido foi dinamitado. O que não foi dinamitado foi vandalizado. E quem recusou colaborar pagou com a vida. Khaled al-Asaad, o diretor do complexo arqueológico, foi assassinado por se recusar a revelar onde estavam escondidos os maiores tesouros da cidade. Tinha oitenta e três anos.
Fico algum tempo parado entre os blocos de pedra, surpreendido com a escala do tempo envolvida. Dois mil anos. Oitenta e três. Dois anos. E os dois anos ganharam. Por KO.
Com a mão vai apontando ora para os pavimentos, ora para o que ainda está de pé, as influências greco-romanas, árabes e persas presentes na arte e arquitectura palmirenses.
Agora, pouco ou nada sobra. O anfiteatro ainda se mantém de pé. É o único que conserva alguma da sua imponência original. Tétrico, porém: foi aqui que o Daesh executava os seus prisioneiros.
Agora, pouco ou nada sobra. O anfiteatro ainda se mantém de pé. É o único que conserva alguma da sua imponência original. Tétrico, porém: foi aqui que o Daesh executava os seus prisioneiros.
Em cada ponto, a guia mostra fotografias de antes e depois. O exercício é sempre o mesmo e o resultado também: o antes tem cor, volume, presença. O depois sou eu, em silêncio, parado no meio do que sobra, a tentar imaginar o que as fotografias mostram que já não existe.
De volta à carrinha para fazer uma paragem onde tudo terá começado: a fonte de Afqa.
Secou em 1994 consequência de secas e uso excessivo de água. O Daesh destruiu-a nas duas ocupações. Foi reabilitada através de um projeto conjunto sírio-russo e voltou a correr em 2019.
Desço os degraus de pedra e encontro-a: verde-esmeralda, quieta, a emergir de baixo da rocha como se nunca tivesse saído. Há ervas a crescer nas bordas.
Num dia inteiro de cores macilentas, ruínas e cartuchos de bala, é a primeira coisa viva que vejo.
Imagino como estas cidades seriam nos seus tempos mais gloriosos, como seriam os seus aromas, as suas cores, ruídos e as rotinas diárias. Encruzilhada de culturas, pensamentos, arte e arquitectura.
Por isto gostei tanto de Khiva e de Petra.
Uma sensação de portal do tempo quando se cruzam as muralhas da primeira ou se chega ao fim do al-Siq da segunda. O século XXI fica para trás e recuamos um par de milénios.
Em Palmira não senti esta transição abrupta no tempo, o isolamento histórico.
Faltou-lhe, faltou-me, aquele impacto de viagem, de isolamento no tempo.
Faltou-lhe, faltou-me, aquele impacto de viagem, de isolamento no tempo.
No fundo, mantive-me sempre no século XXI. Creio que foi precisamente por se ter adicionado história à história.
Quer se queira ou não, a presença do Daesh em Palmira trouxe uma mancha, um toque, infeliz e tremendamente destrutivo, de modernidade excessiva a esta cidade.
Quer se queira ou não, a presença do Daesh em Palmira trouxe uma mancha, um toque, infeliz e tremendamente destrutivo, de modernidade excessiva a esta cidade.
Tinham passado menos de dez anos quando estive lá, uma história demasiado contemporânea e ainda a cicatriz.

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