série "Entre-Sóis" VII - Spitzkoppe, Namíbia

Spitzkoppe é um paraíso feito de picos de granito, de trilhos ocres e de cor alaranjada, vegetação rasteira com arbustos e árvores de pequeno porte. 
Olhares atentos e que saibam procurar nos sítios certos encontrarão vida selvagem. Pequenos roedores, serpentes, escorpiões que habitam por entre as sombras e fissuras dos blocos rochosos e pássaros de olhares atentos ao que se passa entre os rochedos. 
À noite, deitado num colchão ou de pescoço levantado, a noite brilha imaculadamente oferecendo a visão cada vez mais rara de um céu límpido, puro e intensamente semeado de estrelas.

Tinha subido alguns blocos rochosos e apreciado a paisagem granítica de Spitzkoppe nos mais altos.
O inverno austral permitia caminhar e escalar ao longo do dia sem sentir a mordedura agressiva do calor na pele.
Podem-se fazer os trilhos sem guia. Caminhávamos lentamente, sem o peso de um relógio ou tarefa para concluir sobre as nossas costas. 
O guia ia apontando aqui e ali sempre que via algo que considerava interessante: um passaroco pousado num ramo, algo que rastejava entre os rochedos, uma árvore ou um arbusto a partir do qual se podia fazer uma poção que curava isto e aquilo. Aquela sabedoria típica de um bushman cujas gerações viveram sempre naqueles ambientes. Na África do Sul, tinha-me cruzado com um e o conhecimento que têm daquilo que os rodeia é fascinante.
Assim caminhávamos, alternando silêncio com algumas conversas que depois cessavam. Estávamos mais acompanhados dos nossos pensamentos e dos sons que nos rodeavam do que um do outro. O que me agradava de sobremaneira.

O trilho, ladeado por sólidos rochedos, abria-se à nossa frente, apontando o caminho ao horizonte. 
O sol aflorava e as cores envolventes estavam irreais, difíceis de caracterizar. Procurava uma forma de fotografar aquele pôr do sol. As imagens que tinha tirado até então estavam interessantes, mas nada que me pusesse aos pulos de contentamento.
Reparei na acácia. Repousava na lateral direita do trilho. 
Posicionei-me de forma que o sol surgisse por detrás dela — mais para a esquerda, mais para a direita, mais centrado, menos centrado, mais escondido ou mais aberto — até encontrar o lugar certo. 
Tudo estava lá: os laranjas e os avermelhados das cores solares, a tal cor difícil de caracterizar, e o ambiente inconfundível em que me situava.









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