série "Rostos do meu Rosto" - XXXV

Em 2012, no Dia dos Mortos, estava em Sucre, uma pacata e bonita cidade colonial boliviana situada no sul do país. Decidi ir ao cemitério para ver como ali se vivia a data e, como em quase toda a América Latina, descobri um ritual profundo, carregado de símbolos e de uma ternura antiga.

Na entrada do cemitério estava colocada uma grande mesa para hóspedes não terrenos, a mesa das almas, a apxata. 
As famílias chegavam devagar e depositavam os pratos preferidos dos seus mortos e, ao seu lado, a bebida que estes mais gostavam de beber. Sobre a mesa, arcos de papel púrpura e roxo marcavam a fronteira entre o céu e a terra, como portais frágeis que só naquele dia se abriam. Pães moldados em forma de escadas, mostravam o caminho de volta ao céu, depois da refeição.

Dentro do cemitério, cegos sentavam-se nos bancos ou junto aos túmulos, cantando ladainhas sem descanso. Nas mãos, seguravam terços, rosários, pequenas imagens de santos e fotografias gastas.
Mais tarde soube que eram pagos pelas famílias para rezarem pelas almas dos seus mortos. 
A explicação era simples: por não verem, não se distraíam com o mundo à volta; assim, acreditava-se que as suas orações subiam mais depressa ao céu, como se encontrassem um caminho directo até Deus.

Entre todos, um homem sentado num banco destaca-se. 
Gorro laranja, fato riscado com as costuras à vista, cuja cor original é já uma memória vã. 
Nas mãos, um crucifixo de madeira e metal. A boca entreaberta na ladainha. 
Os olhos abertos para um mundo que não vê e por isso mais próximo do que reza.








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