série "Rostos do meu Rosto" - XXXVI

O Trail de Lares é discreto e pouco conhecido. 
Não tem a fama do Trilho Inca, nem a romaria de turistas que o acompanha. São três dias de trekking em quase completo silêncio, com um pequeno grupo, sem turistas à vista — apenas a presença tranquila dos habitantes locais e a imensidão andina.
O trilho cruza aldeias rudimentares com estilos de vida espartanos, moldados por uma geografia impiedosa e desprovidos de qualquer conforto moderno. A poucas centenas de metros de uma delas, avistavam-se casas feitas de tijolos rudimentares, roupa estendida em cima de muretes de pedra e nas varandas de madeira, ovelhas, galinhas e porcos à solta. Um cenário suspenso no tempo.

As tendas estavam montadas quando chegámos. À entrada de cada uma, as mochilas grandes marcavam o código postal improvisado dos seus futuros ocupantes. 
Os miúdos da aldeia, ao perceberem da nossa chegada, começaram a correr na nossa direcção com uma alegria exuberante. Sabiam exactamente o que trazíamos para eles.

Tivemos de os alinhar lado a lado, quase numa disciplina militar, para organizar aquele caos cheio de expectativa. Seguimos o estereótipo: carrinhos e camiões para meninos, laços e bonecas para meninas. Material escolar para todos.
Os laços tinham sido mal calculados. Uma das pequenitas ficou sem o seu. Olhou-me directamente, em silêncio. O seu olhar suave perguntava apenas: E eu?
Jamais ficaria sem nada. Dei-lhe um carrinho e um pão. O seu tesouro.









Comentários