Mauritânia, comboio do minério de ferro: porque posso

Quando cheguei a Portugal e contei a história da minha viagem no comboio do minério de ferro — de Zouérat até Choum, num vagão de carga cheio de minério, centenas de ovos, caixas de tâmaras, um pastor com duas cabras e três mineiros — sentado sobre sacos de ajuda alimentar do World Food Programme, patrocinados pela Espanha mas ensacados na Turquia, e não numa carruagem de passageiros, perguntaram-me porque o tinha feito.
A resposta ocorreu-me ao recordar a entrevista de George Mallory em 1923, quando um jornalista lhe perguntou porque queria escalar o Evereste. A resposta foi igualmente lacónica, mas monumental: "Porque está lá."
No ano seguinte, Mallory e Sandy Irvine morreram — talvez a subir, talvez a descer o Evereste — engolidos no silêncio de um glaciar.
Eu regressei com pó de ferro e areia do Saara impregnados nos pulmões, mas partilho com eles a razão da minha resposta.



O comboio parte sem hora certa, mas geralmente entre as 15 e as 16 horas.
Ao contrário do que esperava, não há estação alguma: nem cobertura, nem tabuleta, nem cancela, nem ninguém fardado que imponha ordem e anuncie partidas e chegadas. Nada. Apenas uma estrada de terra batida avermelhada que atravessa a linha. Os carros param ali e deixam as pessoas. Ficam em pé ou sentam-se sobre as bagagens e esperam. Há quem chegue por volta da uma da tarde e o comboio só parta às cinco.
Tal como eu. Cheguei cerca das 12h30, almocei debaixo de uma pequena árvore esquelética e esperei.


A hora da partida depende do número de vagões que seguem até Nouadhibou, num percurso de 700 km, até à cidade costeira onde o minério é despachado para a Europa, América e Ásia. Pode ou não parar em Choum, ou noutras localidades. Para quem precise dessa paragem, como eu precisava, é melhor certificar-se previamente.
No sentido contrário, o comboio vai vazio, mas transporta tudo o que possa ser necessário aos mineiros: gado, mantimentos, maquinaria, os próprios mineiros, pastores e locais que trocam o desconforto extremo da viagem pela vantagem de a fazerem gratuitamente.

Tinha bilhete para o vagão de passageiros. Entrei, fui controlado e mostraram-me a cabine. Obedientemente, fui até lá. Três mulheres olhavam para mim com um misto de surpresa e visível desconforto. O estreito corredor fervilhava de gente. Muita gente a entrar e a sair ao mesmo tempo, vozes altas, chamamentos, gestos exuberantes, pessoas a apertar-se para que outras passassem.
No auge da confusão, saí da carruagem e dirigi-me ao vagão de carga. Subi a escada metálica, procurei o lugar mais confortável possível entre os sacos de ajuda alimentar cheios de cereais e sentei-me. Eram cerca das três da tarde. Olhei à volta para perceber onde estava e com quem estava: a última carruagem do comboio, os últimos dez metros de pelo menos dois quilómetros e meio de minério, três mineiros, um pastor, duas cabras, uma pilha de tâmaras, outra de ovos e vários sacos, também eles empilhados, de ajuda alimentar, a atravessar o Saara.

Dois mineiros, um de camisola encarnada e outro de camisola preta, estavam sentados na mesma pilha de sacos onde eu estava. O terceiro, de camisola verde-azeitona, sentava-se à minha frente sobre caixas de tâmaras. O pastor, como quem quer manter a privacidade, tinha construído uma pequena divisória com caixas de ovos e caixas de plástico vazias, isolando-se dos outros.
Tinha passado por cima dele, e das cabras, quando subi para o vagão. Estavam enroladas e atadas em sacos de serapilheira, apenas a cabeça de fora, balindo nervosamente num ambiente que não era o seu.
Ele tinha cavado uma pequena cova no minério de ferro e, com alguns pedaços de carvão, acendera uma fogueira improvisada. Agora preparava chá sobre as brasas, que oferecia a todos assim que ficava pronto.



O sol do deserto fazia-se sentir, e eu desejava que o comboio despertasse para libertar a brisa que amenizasse o calor. Já passava das quatro da tarde. Levantei-me para avaliar a situação: observar os vagões, o movimento dos passageiros, procurar sinais de partida. Os mineiros fizeram-me sinal para me baixar. Foi nesse momento que me recordei de que estava clandestino naquela carruagem: formalmente, não é permitido viajar nos vagões de carga. Para o fazer, ou se paga um suborno a quem controla os bilhetes, ou é preciso ser muito discreto na subida. Eu tinha optado pela segunda. Baixei-me, encolhi-me entre os sacos e esperei.
Uma hora depois, um solavanco metálico, brusco e audível, sinalizou o início da viagem e com ele chegou a desejada brisa. O movimento sossegou as cabras.

A locomotiva atravessava o Saara ronceiramente, como um animal antigo, cansado e de dorso áspero, cuspindo poeira e metal. De vez em quando olhava para o GPS do telemóvel: a velocidade oscilava entre vinte e trinta quilómetros por hora, ocasionalmente atingindo cinquenta.
Mesmo no fim do comboio, vivia envolto numa fina poeira adocicada de metal e areia. Um cheiro que ficaria impregnado em mim e nas roupas. As roupas já não regressariam a Portugal.
Nas curvas mais abertas dos carris tinha verdadeira noção da extensão do comboio. Espreitava pelo vagão e adivinhava, mais do que via, onde ele começava. A névoa cinzenta alongava-se e pairava no ar como uma chuva que se recusa a cair. 
Sentia-me liberto, solto, numa realidade a milhares de quilómetros da minha, fora do conforto de uma carruagem de passageiros, com companheiros únicos e em condições absolutamente singulares: sentado em sacos de cereais em vez de bancos, rodeado de deserto por todos os lados, numa nuvem de poeira de ferro e areia, sujeito a solavancos inesperados e desequilibrantes.
De costas para a locomotiva, a linha férrea desenrolava-se perante mim num imenso tapete cujo fim não se vislumbra.


Gradualmente, a temperatura abrandou. À direita, onde tudo acontecia, o sol descia no horizonte; à esquerda, as carruagens projectavam sombras longilíneas sobre as areias.
Onde a estrada corria paralela à linha, surgiam os primeiros carros com as luzes acesas. À minha volta, tudo estava mergulhado numa aura dourada que intensificava a cor das areias. A hora dourada apresentava-se em toda a sua glória, filtrada pela névoa de pó de ferro que me envolvia há horas.

O tempo passava. O dourado dissolvia-se devagar. Os laranjas recuavam, os vermelhos apagavam-se, os amarelos desvaneciam-se. O que ficou não era ainda noite mas já não era dia: um azul enegrecido acima da minha cabeça, mais profundo a meio do céu, e no horizonte, uma fina linha de cobre que a escuridão ia engolindo.
O mundo sustém a respiração entre dois estados. Gosto desta hora, a hora azul, deste limbo.
A alongada nuvem de pó metálico e areia mantinha-se, omnipresente, mas não ofuscava um milímetro de um céu absolutamente estrelado, que se estendia para lá do que a minha visão podia abarcar.
O som surdo, grave e metálico da locomotiva embalava a noite.




Os mineiros juntaram-se ao pastor na sua improvisada divisória. Estavam iluminados pelas luzes dos telemóveis. 
Conversaram, beberam chá que ofereceram e aceitei. Mantiveram-se na conversa algum tempo e depois regressaram aos lugares onde estavam.

O mineiro de camisola encarnada veio ter comigo com o telemóvel na mão, apontando um dedo para a porta de carregamento USB. "Aywa" (sim), respondi. Da mochila tirei a minha powerbank e dei-lha. Sorriu abertamente, agradeceu e menos de uma hora depois devolveu-ma. Em sucessão rápida, apenas alguns segundos de cada vez, nos próximos minutos iria ouvir hip-hop, rap, e uma ou outra música que reconheci por passar regularmente nas playlists das rádios portuguesas.

De vez em quando mostrava-me o ecrã. Aproximei-me dele. Inevitavelmente via um carro desportivo ou uma miúda de corpo divino a dançar com as suas voluptuosas curvas. Ria-me e exclamava "Wooooow!!!" O jovem mineiro de vinte e poucos anos, com um corpo treinado na dureza das minas, inclinava a cabeça para trás ao mesmo tempo que dava gargalhadas com vontade e procurava mais vídeos para me mostrar.
A certa altura parou de ver vídeos e começou a rever fotografias. Percebi que aquele momento já não me pertencia, que se tinha tornado um momento pessoal e regressei ao sítio onde estava sentado.
Ao firmamento, à vibração sob o corpo, ao ruído surdo dos rodados, ao cheiro mineral que nunca deixou de me envolver, ao tempo suspenso que só existe num vagão perdido nos últimos metros de dois quilómetros e meio de aço a avançar pelo maior deserto africano.

Parou. Sem apitos, sem avisos, sem tabuletas. Simplesmente parou. Espreitei por cima do vagão e vi pessoas, bagagens, animais e carros, tal como em Zouérat. Calculei que fosse Choum. Confirmei com o mineiro de camisola verde-azeitona. 
Voltei a passar por cima da divisória do pastor e das suas cabras, que se mantiveram sempre calmas, e desci os mesmos degraus metálicos do mesmo lado do vagão.
O meu guia esperava-me com uma Hilux branca. Entrou e começou a conduzir de um lado para o outro, sempre ao longo do comboio, à procura de algo que definitivamente não encontrava. Mounir abanou a cabeça e disse:
— Parou em cima da passagem para os carros. Não podemos passar.
— Quanto tempo? — perguntei.
Levantou os ombros. Não sabia.
E de facto não sabia. Saiu da pickup, deixou o motor e as luzes acesas e sentou-se no chão. Outros condutores, Mouhamed e Brahim, juntaram-se e fizeram o mesmo. Sentei-me à frente da grelha da minha pickup, mesmo entre os faróis.
Começou a movimentar-se. Lentamente, tinha de vencer a inércia de centenas de vagões.
Vi-os passar, cronometrei-os, e cerca de seis minutos depois encontrei o que procurava: os últimos dez metros da grande serpente. O meu vagão.
Vi distintamente os três mineiros quando passaram pelo enorme foco de luz das pickups combinadas.
A passagem ficou finalmente livre e os condutores cruzaram-na em direcção à escuridão.

Nessa noite, ao tomar banho, a água que escorria sobre mim ficou escura durante vários minutos.
A grande serpente metálica ainda estava a passar.







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