A Mauritânia foi o último país do mundo a abolir legalmente a escravatura.
Aconteceu em 1981 — por decreto presidencial, sem lei criminal que o acompanhe, sem mecanismo de aplicação, sem consequência para quem não cumpre. É uma abolição de papel, escrita para o mundo ler, não para o país mudar.
A escravatura mauritana é hereditária e matrilineal. A condição transmite-se pela mãe. Uma mulher escrava gera filhos escravos — independentemente de quem seja o pai ou do que a criança venha a ser. O filho nasce pertença antes de nascer pessoa. É aqui que esta escravatura se distingue de quase todas as outras formas contemporâneas de exploração. Não é oportunista nem circunstancial. Não depende de uma crise ou de uma dívida. É estrutural, inscrita no corpo desde o nascimento, transmitida como se fosse sangue. As mesmas famílias que possuíam os avós possuem os netos.
As mulheres carregam um peso duplo: são trabalhadoras e produtoras. O seu corpo tem valor de uso e valor reprodutivo. São habitualmente confinadas ao espaço doméstico, não apenas por divisão de tarefas, mas como forma de controlo. O espaço doméstico restringe movimentos, limita contactos e dificulta a fuga. Podem ser cedidas para trabalho agrícola, emprestadas a outras famílias como serviço, tratadas como um bem que circula entre casas.
A violência sexual é prática corrente. Os filhos que nascem dessas situações são escravos — pertença da casa, um acréscimo ao património. A gravidez é, em muitos casos, incentivada precisamente porque produz mais escravos. A maternidade, neste contexto, é uma função, uma aquisição de bens. Os filhos de escravas nascem escravos. Sem registo de nascimento nem de certidão.
Nascem propriedade e não chegam a ser cidadãos.
O trabalho começa cedo.
Os rapazes guardam gado, pastoreiam, trabalham nos campos. As raparigas entram no ciclo doméstico que as suas mães já conhecem. A educação formal está fora de alcance porque sem documentos, sem estatuto e sem tempo, a escola é simplesmente outro mundo.
Uma criança servindo numa casa remota do deserto não chega a um hospital. Sem documentos não há hospital. Sem hospital não há parto assistido, não há infecção controlada nem ferida curada.
A decisão de tratar pertence ao possuidor e depende do valor de uso do corpo em questão.
Um dente podre, um corte profundo, um braço ou uma perna partida, não é uma questão médica. É económica e de valor. As mulheres parem no espaço doméstico, sem assistência, porque a gravidez interessa à casa e o parto não é um custo para o senhor. A mortalidade materna e infantil nestas comunidades não é contabilizada porque quem não existe legalmente não pode morrer oficialmente. O seu nascimento não foi registado. A sua doença não será tratada. A sua morte não constará em nenhuma estatística. Logo não existe nos indicadores de saúde, não existe nos censos, não existe em lado nenhum onde um Estado mede aquilo que considera real.
Se não está nos números, para o Estado não existe.
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