A carrinha avança aos solavancos pela antiga pista militar da RAF, dos tempos da Segunda Guerra Mundial, engolida por uma escuridão tão densa que os faróis mal a conseguem rasgar. À volta, o silêncio é tão vasto que parece ter forma própria. Acima, um céu de nitidez quase excessiva, como se alguém o tivesse polido até à transparência. Quando a carrinha pára, o Hotel Orchid surge apenas como um esboço de luz fraca contra o nada.
Mas não é a pista nem a velha base militar que me trouxeram até ali. É a Reserva de Tartarugas de Ras al Jinz — para ver algo cuja probabilidade é tão baixa que eu nem levo demasiado a sério.
Mas não é a pista nem a velha base militar que me trouxeram até ali. É a Reserva de Tartarugas de Ras al Jinz — para ver algo cuja probabilidade é tão baixa que eu nem levo demasiado a sério.
No dia seguinte à chegada, não há pressa. Assisto ao nascer do sol no topo do hotel, tomo o pequeno-almoço mais devagar do que o sol demora a subir no horizonte, passo uns minutos na piscina, vou até à praia e exploro a pista que na noite anterior atravessara na escuridão — agora uma cicatriz de alcatrão no chão, exposta à luz do dia.
Ao entardecer, vou até Ras al Hadd. Sento-me num café, deixo passar o tempo. Como qualquer coisa e regresso ao hotel. De novo na piscina, subo as escadas, tomo um banho para limpar o cloro e volto à aldeia. Regresso ao hotel e fico à espera.
Se ninguém vier chamar-nos antes das duas da manhã — ou das quatro, no limite — regressamos aos quartos e a noite fica entregue a si mesma.
Duas da manhã. Estou sentado nas escadas do Hotel Orchid.
Ao entardecer, vou até Ras al Hadd. Sento-me num café, deixo passar o tempo. Como qualquer coisa e regresso ao hotel. De novo na piscina, subo as escadas, tomo um banho para limpar o cloro e volto à aldeia. Regresso ao hotel e fico à espera.
Se ninguém vier chamar-nos antes das duas da manhã — ou das quatro, no limite — regressamos aos quartos e a noite fica entregue a si mesma.
Duas da manhã. Estou sentado nas escadas do Hotel Orchid.
A conversa com quem está comigo esmoreceu há muito; estou recolhido nos meus próprios pensamentos, desenhando padrões no chão com o feixe da lanterna frontal.
Uma carrinha surge na escuridão e pára quase à minha frente. Os faróis estão cobertos com celofane avermelhado, o que lhe dá um ar ligeiramente alienígena, como se tivesse atravessado outra camada da noite. O condutor sai num gesto rápido e diz apenas: come, come, come. As mãos puxam o ar à sua frente.
Conduzimos pela praia durante alguns minutos, devagar, a luz avermelhada dos faróis a arranhar as areias, o motor quase em silêncio. No interior, ninguém fala.
Conduzimos pela praia durante alguns minutos, devagar, a luz avermelhada dos faróis a arranhar as areias, o motor quase em silêncio. No interior, ninguém fala.
O condutor trava com suavidade. Vira-se para nós e leva um dedo aos lábios: silence. Abro a porta e o ar frio da madrugada entra como uma lâmina fina. Ouço o marulhar do mar. A areia está húmida e fria sob os pés. O guia aponta para um ponto na escuridão, próximo de nós e sussurra: there. Sigo a direcção do seu dedo. No círculo de luar, uma carapaça enorme emerge da areia — vejo os seus padrões reticulares como um mapa antigo gravado na escuridão.
O guia posiciona-nos atrás dela. Ninguém pode estar à sua frente, tocá-la ou usar flash. Apenas o luar e a lanterna do guia iluminam o que se passa: o desovar de uma tartaruga verde.
A sua cloaca contrai-se e relaxa, contrai-se e relaxa. Mecanicamente, ciclicamente. Os ovos depositam-se envoltos numa mucosa transparente. As barbatanas dianteiras bem abertas sobre a areia. Imóvel. Alheia a nós por completo.
A sua cloaca contrai-se e relaxa, contrai-se e relaxa. Mecanicamente, ciclicamente. Os ovos depositam-se envoltos numa mucosa transparente. As barbatanas dianteiras bem abertas sobre a areia. Imóvel. Alheia a nós por completo.
Uma tartaruga verde pode depositar em média cem ovos por postura. Pelo que consigo ver, esta está longe de ter terminado.
Este momento é demasiado raro para o desperdiçar atrás de um ecrã. Permito-me um breve vídeo e uma ou duas imagens. Dou por mim a conter a respiração — com medo, creio, de a perturbar.
O guia sinaliza para regressarmos à carrinha. Recuo de costas, para a poder ver mais uns segundos. Alguns, apenas. E, enquanto ainda a vejo, faço-lhe um desejo profundo, sincero e de todo impossível: que toda a sua descendência sobreviva até à fase adulta.
Vim a Ras al Hadd esperando assistir ao eclodir dos ovos. Ver as crias atravessarem a areia e lançarem-se ao mar, fazendo aquilo para o qual nasceram: cruzar oceanos.
Vejo outra coisa. Algo não esperado, nem ansiado, e contudo bem mais raro: o desovar.
E percebo que viajei, encontrando o que não tinha procurado.
Este momento é demasiado raro para o desperdiçar atrás de um ecrã. Permito-me um breve vídeo e uma ou duas imagens. Dou por mim a conter a respiração — com medo, creio, de a perturbar.
O guia sinaliza para regressarmos à carrinha. Recuo de costas, para a poder ver mais uns segundos. Alguns, apenas. E, enquanto ainda a vejo, faço-lhe um desejo profundo, sincero e de todo impossível: que toda a sua descendência sobreviva até à fase adulta.
Vim a Ras al Hadd esperando assistir ao eclodir dos ovos. Ver as crias atravessarem a areia e lançarem-se ao mar, fazendo aquilo para o qual nasceram: cruzar oceanos.
Vejo outra coisa. Algo não esperado, nem ansiado, e contudo bem mais raro: o desovar.
E percebo que viajei, encontrando o que não tinha procurado.
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