De costas para nós e ignorando completamente o grupo de basbaques que olhavam para ele com ar extasiado, o enorme gorila da montanha comia e segurava delicadamente nas suas enormes mãos (não vou chamar-lhe patas) pedaços de casca de uma velha árvore.
Durante minutos esteve assim. À sua volta e espalhadas num raio de talvez cinco metros, estavam a criançada e as suas baby sitters, três crias e três fêmeas. Escondidas na vegetação, com uma a espreitar timidamente por entre a folhagem, estavam mais duas crias.
Ainda a mastigar e com algumas cascas na mão, Bwenge virou-se e fitou-nos. Já sabia que iria ser assim.
Tive que calar o apelo do meu lado de criança. Correr, abraçá-lo, fazer-lhe um cutchi cutchi, naquela carantonha enrugada, mal encarada mas absolutamente adorável, levá-lo para casa, pô-lo em cima da minha cama e dormir agarrado a ele. Hummm...
Mas fui obrigado a ser adulto. Deixei-me fascinar pela suavidade dos movimentos de um animal de quase duzentos quilos, pela imensidão da sua cabeça, pela pelagem que o cobria de alto a baixo exceptuando o largo peito, oscilando entre o preto carregado e o cinzento algo brilhante.
O seu rosto (não vou chamar-lhe focinho) profundamente marcado pelas rugas que nascem dos sobrolhos, descem pelo nariz e alargam depois para debaixo dos olhos, confere-lhe nobreza e sabedoria.
Aqueles olhos que, escondidos nas profundezas do seu rosto, espelham uma alma que só pode ser tranquila e tolerante. Dá-lhes um ar de quem não faz mal a uma mosca, um gigante de bom coração.
Mas a aparência pode iludir. É sabido que quando os gorilas soltam a sua raiva, eles explodem em velocidade e força. Os resultados podem ser desastrosos e por vezes mortais.
Tudo no mundo dos gorilas é lento e delicado. Os gestos são feitos com tempo, como se fossem previamente planeados. Comem devagar e deslocam-se sobre os quatro membros, apoiando-se nas articulações dos dedos, suavemente, quase sem ruído.
As suas mãos vão buscar as folhas e raízes com calma. Giram as suas cabeças lentamente e têm uma paciência imensa com as crias quando estas brincam nos seus dorsos ou se atravessam no seu caminho.
Foram as crias que quebraram outra das regras de Felix — não ultrapassar os sete metros de proximidade. Curiosidade, claro. Aproximando-se, aproximando-se cada vez mais de nós e na nossa direcção. Atrás delas vieram as fêmeas. A intervenção dos dois batedores, agachados e agitando os braços de um lado para outro, a lembrar... gorilas, impediu que se aproximassem ainda mais, evitando um muito provável contacto imediato do terceiro grau, mas mesmo assim passaram rente a nós.
Mas a partir desse momento os tais sete metros ficaram sempre mais curtos.
Felix ensinou-nos a fazê-lo. É um som rouco, grave, quase cavernoso e sustentado. Vem do fundo da garganta.
É um pigarrear a dois tempos. É fácil e divertido. É uma saudação.
Basicamente significa "Como estás? Estou satisfeito por te ver". Destina-se a aliviar um pouco a tensão que a nossa presença possa induzir no gorila e nos elementos da sua família.
É como pagar uma cerveja e um prato de tremoços a uma pessoa que se acaba de conhecer.
Quando começámos a treinar o som, que ao início mais parecia soluços do que outra coisa qualquer, tivemos surpreendentemente logo uma resposta de Bwenge e da fêmea que estava mais próxima dele.
E de tempos a tempos, ele e nós produzíamos esse som rouco, essa saudação de satisfação. A coisa resultava mesmo.
Duas espécies afastadas entre si por menos de 2% de património genético comunicavam num som que provavelmente, há milhões de anos, terá sido comum às duas.
E melhor ainda. As duas espécies estavam satisfeitas com a presença uma da outra.
Uma hora??? Como já passou uma hora??? Felix tinha sussurrado que mais cinco minutos e tínhamos que descer.
Diabo, tinha apenas mais cinco minutos para guardar para a minha eternidade aqueles rostos enrugados, aqueles olhos melados, o andar vagaroso, de quem tem o tempo todo do mundo.
Talvez eles nem desconfiem do quanto é frágil o mundo onde se movem, as ameaças que pairam sobre a sobrevivência da sua espécie e o esforço que está a ser feito para os salvar.
A mesma espécie que, fascinada, os observa, os respeita e ajuda a protegê-los, é a mesma que está empenhada em os destruir. Que raio de dualidade!
Absurdamente, há quem os mate para fazer cinzeiros das suas mãos!
Felix não precisou de fazer uma segunda chamada à realidade. Bwenge e a sua família pareciam saber que a nossa hora tinha chegado ao fim. Bem vistas as coisas, talvez fosse antes a hora deles nos observarem a nós que tinha chegado ao fim.
Lentamente, como fantasmas pretos num mundo verde, viraram as suas costas e desvaneceram-se gradualmente na densa floresta.
Uma das crias, ainda cheia de curiosidade, virou-se uma última vez para trás em jeito de adeus. Quem sabe se não estaria a guardar na sua cabeça uma última imagem daquele grupo de macacos pelados, que se movimentam na vertical e sem jeito nenhum para andarem na floresta.
Vi-os a ir embora com o meu coração ainda a bater fortemente, incrédulo com a experiência que tinha vivido na última hora.
Tal como o elefante Ganja no Zimbabwe, o cavalo Arandu na Patagónia argentina e as raias na barreira de coral do Belize, o gorila da montanha Bwenge do Ruanda entrou nas páginas mais bonitas que as minhas viagens jamais me proporcionaram.
Uma espécie de mitologia pessoal que, pouco a pouco, se vai enchendo de momentos e vivências incríveis, inesquecíveis e quase indescritíveis.
Aquele tipo de momentos, que garantidamente passarão pelos olhos da minha memória e me farão sorrir antes dos outros olhos se fecharem definitivamente.
"Adorei conhecer-te, Bwenge. Tens uma família linda.
Como diria o vulcano Spock na sua saudação — que tenhas uma vida longa e próspera."
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Lindo!
ResponderEliminarOi Rita obrigado pelo comentário :)
ResponderEliminarOs gorilas da montanha são animais espantosos e ter podido observá-los foi um grande privilégio. Mexeu imenso comigo.