Dei por ela por acaso e logo na entrada certa.
É um enorme rosto muito bem pintado de Jan Van Eyck que me chama a atenção e faz abrandar ainda mais os meus passos lentos.
A lógica da Werregarenstraat é simples: tudo é permitido. Desde obras de arte a rabiscos sem nexo e geometrias pouco dignas desse nome. O scribble, o bombing e as tags têm direito à existência e à coexistência com o talento. É esta a "arte" que predomina nas paredes de ambos os lados, onde até o chão e gradeamentos são alvos dela. Noutra parede, noutra rua, seria considerado, e bem, vandalismo. Mas na Grafitti Street, a tolerância é total.
É uma cacofonia de cores e formas exuberantes, onde os pretos carregados e os encarnados fortes convivem e se misturam com os fluorescentes mais enervantes, numa tentativa de "elevar a voz" entre o caos, apesar de a falta de talento ser, por si só, gritante.
Nesta rua tudo é permitido, inclusivamente pintar por cima do que já está pintado.
Consta, no entanto, que os principais artistas "policiam" a rua para evitar que os melhores murais sejam vandalizados, apesar de tal ser permitido. Uma regra tácita, nem sempre cumprida, diz que as melhores obras devem ser preservadas. Aqui e ali surge algo que se destaca e nos atrai a atenção: uma admiração, um olhar mais atento.
Apenas meia dúzia de pessoas, comigo incluído, exploravam esta rua, fotografando-a ou apontando os indicadores para algum pormenor que tenha chamado a atenção.
Chovia fininho e o frio era suportável. Tinha acabado de almoçar e ainda sentia o sabor de um gaufre de chocolate, comprado na rua para sobremesa.
Tinha duas hipóteses: regressar ao hotel e deixar a tarde passar, ou perder-me nas ruas de Gent, caminhando sem rumo, gizando histórias para quem passava por mim, adivinhando de onde vinham, para onde iam e o que traziam nas mãos.
Está mesmo na entrada de um beco que, na sua esquina, tem uma discreta tabuleta que nos diz o seu nome: Werregarenstraat. A tradução do nome em neerlandês aponta para uma rua onde o ofício da tecelagem, da fiação e do têxtil era a atividade dominante. Contudo, nos dias que correm, o nome não podia ser mais enganador.
Para os panfletos turísticos (que não tinha lido), para os próprios habitantes de Gent e principalmente para os artistas urbanos que a usam como tela, esta rua curvada, pedonal, estreita, tímida e opulenta em cores é conhecida como a Grafitti Street.
Liga a rua Hoogport, de onde caminhava, para o lado oposto, a Onderstraat. São cerca de cinquenta metros, de pura contemporaneidade que liga duas ruas de traça medieval, onde a arte e a "arte" reina.
É uma cacofonia de cores e formas exuberantes, onde os pretos carregados e os encarnados fortes convivem e se misturam com os fluorescentes mais enervantes, numa tentativa de "elevar a voz" entre o caos, apesar de a falta de talento ser, por si só, gritante.
Nesta rua tudo é permitido, inclusivamente pintar por cima do que já está pintado.
Consta, no entanto, que os principais artistas "policiam" a rua para evitar que os melhores murais sejam vandalizados, apesar de tal ser permitido. Uma regra tácita, nem sempre cumprida, diz que as melhores obras devem ser preservadas. Aqui e ali surge algo que se destaca e nos atrai a atenção: uma admiração, um olhar mais atento.
Apenas meia dúzia de pessoas, comigo incluído, exploravam esta rua, fotografando-a ou apontando os indicadores para algum pormenor que tenha chamado a atenção.
É tentador pensar que a Werregarenstraat é uma rua que foi recentemente, e oportunisticamente, tomada por artistas com zero ideias criativas, onde ocasionalmente algo contraria a entropia dominante desta tela urbana. Não é o caso. Recuamos até 1995, ao festival "Festas de Gent", para vermos esta rua tornar-se oficialmente, por decisão das autoridades maiores da cidade, aquilo que ela é hoje e na qual eu tinha tropeçado.
Agora, após isto tudo, vale a pena visitar, provavelmente, a rua mais colorida de Gent?
Agora, após isto tudo, vale a pena visitar, provavelmente, a rua mais colorida de Gent?
Sim, sem dúvida. Porque a Werregarenstraat que visitar nesse dia será única para ti. No dia a seguir, na semana a seguir, no mês a seguir, no ano a seguir, tudo muda e esse dia será irrepetível. Será exclusivamente teu e das pessoas que contigo a partilharem nesse dia.
Uma cidade cheia de (en)cantos 😍
ResponderEliminarSim, charmosa. É uma palavra bem adequada para descrever Ghent. Nos cantos, recantos e nos encantos 😉
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