série "Entre-Sóis" VIII - Mirissa, Sri Lanka

Pernoitei em Mirissa para apreciar a pacatez de uma vila que adormece nas areias do Oceano Índico. A minha verdadeira paragem seria no dia seguinte, em Galle, onde permaneceria duas noites antes de seguir para Colombo, para regressar a Portugal. A meio da jornada, fiz uma paragem de algumas horas para ver, como um típico turista, os famosos pescadores em estacas de Weligama.

Água quente de aspeto macio, areias suaves, coqueiros e um pôr do sol espetacular. Melhor que tudo: quase ninguém na praia. A descrição condiz com qualquer cenário das Caraíbas, excepto pelo facto de estar no Sri Lanka, uma ilha ancorada no Oceano Índico, separada do sul da Índia pelo Estreito de Palk, a uns escassos 130 km.

Enquadro, fotografo algumas vezes o pôr-do-sol com aparência de pintura. Pouso a câmara em cima da toalha, aos meus pés, e encosto-me a uma rocha até o sol desaparecer no horizonte.
O meu hostel ficava a poucas dezenas de metros daquela praia, pelo que decidi tomar banho à noite. 
O céu estava límpido e estrelado. A Lua, em quarto crescente, iluminava as águas do Índico com uma luz suave. Um pequeno grupo de ocidentais banhava-se, alguns deles nus.
Volto a pousar a câmara na areia, enrolo-a com cuidado na toalha e entro no mar. 
Sinto a água quente no corpo e deixo-me levar pelas ondas e pelo quieto marulhar da noite. Perdi a noção do tempo.

Quando regressei para me enxugar, a toalha estava revirada. A câmara tinha desaparecido. Fora roubada. O coração disparou-me no peito. Os ocidentais continuavam dentro de água e não havia mais ninguém por perto.
O meu primeiro pensamento foi para os cartões de memória: os que tinha no quarto estavam vazios; os da câmara eram os únicos que continham fotografias. 
Naquele cenário prateado e paradisíaco, alguém acabara de roubar visualmente as minhas férias.

Esta fotografia do pôr do sol foi a última que tirei com aquela câmara.





(A história da recuperação da câmara e cartões foi contada aqui)





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